Quem tem filhos da chamada Geração Alpha sabe: o ambiente digital faz parte da infância de uma maneira muito diferente da vivida pelas gerações anteriores. O termo, cunhado pelo pesquisador australiano Mark McCrindle, identifica os nascidos entre 2010 e 2024. Não se trata de uma classificação científica rígida, mas de uma forma de compreender uma geração que cresce em contato, desde cedo, com smartphones, aplicativos, redes sociais, jogos on-line e outras tecnologias digitais.
No Brasil, a dimensão dessa presença digital é significativa. De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br|NIC.br, sobre o uso da internet por crianças e adolescentes de 9 a 17 anos, 92% desse grupo eram usuários de internet. Entre eles, 85% tinham perfil próprio em plataformas digitais. A faixa etária do estudo inclui também adolescentes nascidos antes de 2010, mas o retrato ajuda a entender o ambiente em que a Geração Alpha está crescendo.
Esse ambiente também aproxima desejo e consumo. O levantamento “Dia das Crianças 2026: educação financeira em família”, realizado pela Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box, realizou entrevistas on-line com 1.066 pais ou responsáveis com filhos de até 18 anos, entre 31 de agosto e 15 de setembro de 2026 (margem de erro de 3 pontos percentuais). Segundo a pesquisa, 32% já descobriram que os filhos fizeram compras sem autorização prévia em aplicativos, jogos ou plataformas digitais. Em 60% desses casos, o gasto foi de até R$ 100. Além disso, 53% dos pais acreditam que as redes sociais aumentam o desejo de consumo das crianças.
Diante desse cenário, ensinar consumo consciente não significa simplesmente dizer “não” aos pedidos dos filhos. É uma oportunidade para ajudá-los a entender a diferença entre desejo e necessidade, perceber a influência da publicidade e das redes sociais, comparar opções e preços e compreender que o dinheiro é um recurso limitado. Até mesmo o ato de esperar antes de comprar pode se transformar em uma experiência de aprendizado.
A participação dos adultos é fundamental nesse processo. Na mesma pesquisa da Serasa, 68% dos pais afirmam que sempre conversam com os filhos sobre limites de preço e orçamento na hora de escolher um presente. Essas situações cotidianas, no supermercado, diante de um brinquedo ou durante uma compra on-line, podem ajudar a desenvolver autonomia e responsabilidade.
A tecnologia, portanto, não precisa ser vista apenas como um risco. Ela também pode ser uma ferramenta para conversar sobre dinheiro, pesquisar preços, comparar produtos e aprender a fazer escolhas. O importante é que a criança tenha acompanhamento e desenvolva, aos poucos, a capacidade de refletir antes de consumir.
Neste Mês das Crianças, mais do que falar sobre o que comprar, vale aproveitar a data para ensinar como escolher. Em um mundo em que comprar pode estar a apenas um clique de distância, aprender a pensar antes de clicar é uma habilidade que pode acompanhar a criança por toda a vida.